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sábado, 12 de agosto de 2017

Um minuto de silêncio - A noite dos poetas assassinados



Quando um poeta morre, a natureza cala-se.


Joakim Antonio


      A noite dos poetas assassinados


© Jane Bichmacher de Glasman*

      O ano é 1952, último ano da vida de Stalin. O lugar, Rússia, União Soviética. O dia, 12 de agosto. Mais especificamente, a noite de 12 para 13 de agosto de 1952.
      Nesta data, cerca de 15 judeus soviéticos, incluindo os mais proeminentes escritores, poetas, e artistas judeus russos de língua ídishe foram secretamente julgados e condenados por crimes capitais, incluindo traição, espionagem e nacionalismo burguês.
      Eles eram visados devido à sua participação no Comitê Anti-Fascista Judaico e à sua resposta como judeus às atrocidades nazistas no território soviético ocupado.
      Nesta noite eles foram executados por ordem de Josef Stalin, no calabouço da infame prisão da praça Lubyanka em Moscou.
      Entre as vítimas estavam Peretz Markish, David Bergelson, Itzik Fefer, Leib Kvitko, David Hofstein, Benjamin Zuskin, Solomon Lozovsky, Boris Shimeliovich Dovid Bergelson e Der Nister.
      A data é lembrada como a “noite dos poetas assassinados.”

Itzik Fefer, Albert Einstein e Solomon Mikhoels, em 1943

      Seus escritos mostram pouco da nostalgia ou devoção que vemos nas descrições da cultura ídishe[1] o pré-Holocausto. Todos eles - os poetas Peretz Markish, Dovid Hofshteyn, Itzik Fefer, Leyb Kvitko e o novelista Dovid Bergelson - assistiram a Revolução soviética em 1917. A maioria havia se mudado do shtetl[2], das aldeias da Pale[3], para Kiev e Moscou, em busca de liberdade intelectual e artística no fervor do modernismo do princípio do século XX. Todos apoiaram o estado comunista emergente.

Ouvimos sua vibração na abertura do poema[4] sem título de Markish:

Eu não sei se eu estou em casa
ou desabrigado.
Estou correndo, minha camisa
sem botões, sem limites, ninguém
me segura, sem começo,
sem fim
meu corpo é espuma
cheiro de vento
Agora 
é meu nome.

Seu sentido do futuro ecoa na estrofe do poema “Cidade” de Hofshteyn:

Cidade!
Eu cheguei em teu porto
no navio de minha solidão.
O navio de minha solidão…
Eu lavei suas velas
nos ventos…
Elas definharam e rasgaram
nos comprimentos e nas larguras
do mundo.

      Eram férteis escritores. Após anos no exterior, em Berlim e na Palestina, de 1923 a 1926, Hofshteyn retornou à União Soviética e publicou numerosos volumes de poesia e traduções. Markish fundou o movimento ídishe modernista conhecido como Khaliastre durante seus anos em Varsóvia. Após seu retorno à Rússia, foi-lhe concedido o Prêmio Lênin de Literatura em 1939. Fefer editou os jornais ídishes Prolit e Desafio e tornou-se membro da União de Escritores Soviéticos. Em 1943, viajou aos Estados Unidos com o ator Solomon Mikhoels atraindo audiências maciças em Nova York em apoio ao trabalho da liga Anti-Fascista.

Por que eles foram assassinados?

      Todos estavam relacionados ao Comitê Anti-Fascista Judaico, estabelecido em 1942 pela União Soviética para atrair o apoio das comunidades judaicas dos Países Aliados na guerra contra Hitler. Com o fim da guerra, a organização já não era mais útil a seus propósitos. Stalin, como soía fazer, virou-se contra seus líderes. Prendeu a maioria entre 1948 e 1949, levou a julgamento em 1952 – culminando com sua execução na noite de 12 de agosto no porão da prisão Lubyanka.
      As mortes destas figuras centrais na literatura ídishe soviética representaram novo golpe à cultura judaica já devastada pelo Holocausto. Silenciaram o núcleo remanescente de intelectuais ativos politicamente e excluíram presumir que tal cultura pudesse sobreviver na Rússia pós-guerra.
      É difícil para alguns de nós recordar agora o otimismo inicial inspirado pela revolução soviética. Tendemos a ter pouca simpatia pelos escritores que compuseram cantos para os trabalhadores ou para Stalin, como vários destes homens.
      Mas com isto nós nos esquecemos de nossas próprias vidas: como nos comprometemos para ganhar a vida; como um ano se transforma 5, em 10; como permanecemos em um trabalho ou em um relacionamento demasiado longo, sem esperança, ou porque nós amamos.
      Esquecemos também das difíceis opções dos artistas judeus daquela época, já estranhos às suas tradições, que não obstante criaram um lar, tentando realizar em alguma medida sua esperança. E esquecemos da ruína gradual mas catastrófica forjada por Stalin.

Uma voz mais pungente para o que foi perdido pode ser ouvida no clamor de Hofshteyn:

Meu amor, meu amor puro!
uma chamada a que sempre atentei
muda, carreguei-a
mil dias:
acima da cabeça cinzenta de meu povo,
para ser
um brilho jovem!

Brilho desperdiçado: interrompido, silenciado e recordado como o que se torna tão distante...
Honremos sua memória com alguns versos destes poetas.

Como seu fim, profética e tragicamente anunciado por Kvitko, em 1919, em “Morte Russa”:

Morte russa

é toda a morte.
Dor russa
é toda a dor.
Como está agora o coração do mundo?
E a sua ferida purulenta?
Pergunta a uma criança.
Pergunta a uma criança judia.

Publicado em Visão Judaica Ed. 62, outubro de 2007.

* Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica -USP, Professora Adjunta, Fundadora e ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos –UERJ, escritora.

[1] Ídishe- idioma judaico originado do alemão grafado em caracteres e com muitos vocábulos hebraicos.

[2] Shtetl (do ídishe: cidadezinha) é o nome ídishe das cidades judaicas na Europa oriental (Polônia, Rússia, Belarus 
etc.). 
[3] Sob o governo czarista, os judeus não tinham permissão para viver fora do Território de Assentamento (Pale), uma região da Rússia, onde, até 1907, massacres eram uma ocorrência comum. 
[4] Os poemas foram traduzidos pela autora deste artigo. Para ler mais deles e sobre eles contate a mesma. 


Para saber mais:

Português

  • Judeus na União Soviética (1917-1991) em Cybersio

English

  • Night of the Murdered Poets, with more links in Wikipedia


Imagens:

1. Silence by fokkusunm
2. Itsik Fefer and Shlomo Mikhoels meet with Albert Einstein. Princeton, 1943. (YIVO Archives)

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Voo Azul


Usei de penas coloridas para mandar uma borboleta. Azul como o oceano, brilhante como o céu, no mais vibrante tom. Carrega palavras desconexas, como se não houvessem continuação, pois a cada quero, teu movimento em silêncio me para, enquanto deixo a música do tocar de asas falar por mim. Mas não se assuste, se ao olhar no espelho, ver escorrer algo pela face. Não são lágrimas. E sim minha poesia, beijando teu rosto e querendo percorrer todo teu corpo nu.

Joakim Antonio


Imagem: Imaginary by misericordia

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Noite chuvosa



Todos somem e a praça fica muda. Há um silêncio diferente, entre os espaços desocupados. Feito do brincar da alma com os pingos de chuva.


Joakim Antonio




Imagem: Praça Antonio Sampaio 16/01/2017 By JoaKim

domingo, 23 de outubro de 2016

Bela, recatada e do lar


Chegou sendo apontada de longe, conto de fadas perfeito. Bela, recatada e do lar. Pisava com delicadeza e dançou levemente, acelerando o ritmo e terminando num tour jeté de impressionar. De repente, deu uma estrelinha e um salto mortal pra trás, deitando-se, sem cerimônia, na calçada do bar.

Todos olharam incrédulos, primeiro pra ela retirando as asas, depois pra mim, quebrando o silêncio com uma gargalhada e levantando o copo, em brinde, no ar.

Já ela, olhou pra todos e disse:

Cansei de ser fake. Ô do sorriso, cadê meu copo?!


Joakim Antonio


Imagem: Fairy tale by Igngrez

domingo, 24 de abril de 2016

Intercalado


Primeiro gritaram entre eles
Mas não liguei pra isso
Eu não era político

Depois bradaram Jesus em vão
Mas não liguei pra isso
Eu também não era cristão

Depois exaltaram a ditadura
Mas não liguei pra isso
Porque eu não sigo mitos

Depois cuspiram-se na cara
Mas como é coisa de gay
Também não liguei

Agora parei de olhar pro meu umbigo
Mas já é tarde
Como eu não liguei pra porra de nada
Ninguém se importa com minhas palavras

Joakim Antonio


(adaptação do poema, INTERTEXTO, atribuído a Bertolt Brecht)


Imagem: Break the silence by Shutterbug13

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Um minuto de silêncio - A noite dos poetas assassinados



Quando um poeta morre, a natureza cala-se.


Joakim Antonio


      A noite dos poetas assassinados


© Jane Bichmacher de Glasman*

      O ano é 1952, último ano da vida de Stalin. O lugar, Rússia, União Soviética. O dia, 12 de agosto. Mais especificamente, a noite de 12 para 13 de agosto de 1952.
      Nesta data, cerca de 15 judeus soviéticos, incluindo os mais proeminentes escritores, poetas, e artistas judeus russos de língua ídishe foram secretamente julgados e condenados por crimes capitais, incluindo traição, espionagem e nacionalismo burguês.
      Eles eram visados devido à sua participação no Comitê Anti-Fascista Judaico e à sua resposta como judeus às atrocidades nazistas no território soviético ocupado.
      Nesta noite eles foram executados por ordem de Josef Stalin, no calabouço da infame prisão da praça Lubyanka em Moscou.
      Entre as vítimas estavam Peretz Markish, David Bergelson, Itzik Fefer, Leib Kvitko, David Hofstein, Benjamin Zuskin, Solomon Lozovsky, Boris Shimeliovich Dovid Bergelson e Der Nister.
      A data é lembrada como a “noite dos poetas assassinados.”

Itzik Fefer, Albert Einstein e Solomon Mikhoels, em 1943

      Seus escritos mostram pouco da nostalgia ou devoção que vemos nas descrições da cultura ídishe[1] o pré-Holocausto. Todos eles - os poetas Peretz Markish, Dovid Hofshteyn, Itzik Fefer, Leyb Kvitko e o novelista Dovid Bergelson - assistiram a Revolução soviética em 1917. A maioria havia se mudado do shtetl[2], das aldeias da Pale[3], para Kiev e Moscou, em busca de liberdade intelectual e artística no fervor do modernismo do princípio do século XX. Todos apoiaram o estado comunista emergente.

Ouvimos sua vibração na abertura do poema[4] sem título de Markish:

Eu não sei se eu estou em casa
ou desabrigado.
Estou correndo, minha camisa
sem botões, sem limites, ninguém
me segura, sem começo,
sem fim
meu corpo é espuma
cheiro de vento
Agora 
é meu nome.

Seu sentido do futuro ecoa na estrofe do poema “Cidade” de Hofshteyn:

Cidade!
Eu cheguei em teu porto
no navio de minha solidão.
O navio de minha solidão…
Eu lavei suas velas
nos ventos…
Elas definharam e rasgaram
nos comprimentos e nas larguras
do mundo.

      Eram férteis escritores. Após anos no exterior, em Berlim e na Palestina, de 1923 a 1926, Hofshteyn retornou à União Soviética e publicou numerosos volumes de poesia e traduções. Markish fundou o movimento ídishe modernista conhecido como Khaliastre durante seus anos em Varsóvia. Após seu retorno à Rússia, foi-lhe concedido o Prêmio Lênin de Literatura em 1939. Fefer editou os jornais ídishes Prolit e Desafio e tornou-se membro da União de Escritores Soviéticos. Em 1943, viajou aos Estados Unidos com o ator Solomon Mikhoels atraindo audiências maciças em Nova York em apoio ao trabalho da liga Anti-Fascista.

Por que eles foram assassinados?

      Todos estavam relacionados ao Comitê Anti-Fascista Judaico, estabelecido em 1942 pela União Soviética para atrair o apoio das comunidades judaicas dos Países Aliados na guerra contra Hitler. Com o fim da guerra, a organização já não era mais útil a seus propósitos. Stalin, como soía fazer, virou-se contra seus líderes. Prendeu a maioria entre 1948 e 1949, levou a julgamento em 1952 – culminando com sua execução na noite de 12 de agosto no porão da prisão Lubyanka.
      As mortes destas figuras centrais na literatura ídishe soviética representaram novo golpe à cultura judaica já devastada pelo Holocausto. Silenciaram o núcleo remanescente de intelectuais ativos politicamente e excluíram presumir que tal cultura pudesse sobreviver na Rússia pós-guerra.
      É difícil para alguns de nós recordar agora o otimismo inicial inspirado pela revolução soviética. Tendemos a ter pouca simpatia pelos escritores que compuseram cantos para os trabalhadores ou para Stalin, como vários destes homens.
      Mas com isto nós nos esquecemos de nossas próprias vidas: como nos comprometemos para ganhar a vida; como um ano se transforma 5, em 10; como permanecemos em um trabalho ou em um relacionamento demasiado longo, sem esperança, ou porque nós amamos.
      Esquecemos também das difíceis opções dos artistas judeus daquela época, já estranhos às suas tradições, que não obstante criaram um lar, tentando realizar em alguma medida sua esperança. E esquecemos da ruína gradual mas catastrófica forjada por Stalin.

Uma voz mais pungente para o que foi perdido pode ser ouvida no clamor de Hofshteyn:

Meu amor, meu amor puro!
uma chamada a que sempre atentei
muda, carreguei-a
mil dias:
acima da cabeça cinzenta de meu povo,
para ser
um brilho jovem!

Brilho desperdiçado: interrompido, silenciado e recordado como o que se torna tão distante...
Honremos sua memória com alguns versos destes poetas.

Como seu fim, profética e tragicamente anunciado por Kvitko, em 1919, em “Morte Russa”:

Morte russa

é toda a morte.
Dor russa
é toda a dor.
Como está agora o coração do mundo?
E a sua ferida purulenta?
Pergunta a uma criança.
Pergunta a uma criança judia.

Publicado em Visão Judaica Ed. 62, outubro de 2007. (PDF)

* Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica -USP, Professora Adjunta, Fundadora e ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos –UERJ, escritora.

[1] Ídishe- idioma judaico originado do alemão grafado em caracteres e com muitos vocábulos hebraicos.

[2] Shtetl (do ídishe: cidadezinha) é o nome ídishe das cidades judaicas na Europa oriental (Polônia, Rússia, Belarus 
etc.). 
[3] Sob o governo czarista, os judeus não tinham permissão para viver fora do Território de Assentamento (Pale), uma região da Rússia, onde, até 1907, massacres eram uma ocorrência comum. 
[4] Os poemas foram traduzidos pela autora deste artigo. Para ler mais deles e sobre eles contate a mesma. 


Para saber mais:

Português

  • Judeus na União Soviética (1917-1991) em Cybersio

English

  • Night of the Murdered Poets, with more links in Wikipedia


Imagens:

1. Silence by fokkusunm
2. Itsik Fefer and Shlomo Mikhoels meet with Albert Einstein. Princeton, 1943. (YIVO Archives)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Silenciador - Palavra Expressa




Silêncio no recinto
Me ressinto de falar
Quando fico mudo
É medo de mudar

O som desligou
E eu nem liguei
O mundo mudou
Ou me mudei

Cordas vocais
Presas num canto
São barco no cais
Não têm encanto

Um pássaro avoa
Sem emitir som
O passado ecoa
Num baixo tom

Dizem que o tempo
Pode curar tudo
Então silencio a dor
Dando um grito mudo


Joakim Antonio


Publicado originalmente na coluna Palavra Expressa, em Retratos da Alma.


Imagem: Biography of my silence V By Mybittersweetness

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Toque - Retratos da Alma





Toque, coluna Palavra Expressa no site Retratos da Alma 


Toque uma canção 
que preencha o imaginar 
tocando o íntimo 
fazendo sonhar 

Toque uma canção 
que nos traga delicadeza 
com toques de fada 
para a vida inteira 

 Toque uma canção 
que preencha o silêncio 
tocando... 





Clique abaixo para ler o texto completo




Imagem: Touching music by Writto

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Um minuto de silêncio - A noite dos poetas assassinados



Quando um poeta morre, a natureza cala-se.


Joakim Antonio


      A noite dos poetas assassinados


© Jane Bichmacher de Glasman*

      O ano é 1952, último ano da vida de Stalin. O lugar, Rússia, União Soviética. O dia, 12 de agosto. Mais especificamente, a noite de 12 para 13 de agosto de 1952.
      Nesta data, cerca de 15 judeus soviéticos, incluindo os mais proeminentes escritores, poetas, e artistas judeus russos de língua ídishe foram secretamente julgados e condenados por crimes capitais, incluindo traição, espionagem e nacionalismo burguês.
      Eles eram visados devido à sua participação no Comitê Anti-Fascista Judaico e à sua resposta como judeus às atrocidades nazistas no território soviético ocupado.
      Nesta noite eles foram executados por ordem de Josef Stalin, no calabouço da infame prisão da praça Lubyanka em Moscou.
      Entre as vítimas estavam Peretz Markish, David Bergelson, Itzik Fefer, Leib Kvitko, David Hofstein, Benjamin Zuskin, Solomon Lozovsky, Boris Shimeliovich Dovid Bergelson e Der Nister.
      A data é lembrada como a “noite dos poetas assassinados.”

Itzik Fefer, Albert Einstein e Solomon Mikhoels, em 1943

      Seus escritos mostram pouco da nostalgia ou devoção que vemos nas descrições da cultura ídishe[1] o pré-Holocausto. Todos eles - os poetas Peretz Markish, Dovid Hofshteyn, Itzik Fefer, Leyb Kvitko e o novelista Dovid Bergelson - assistiram a Revolução soviética em 1917. A maioria havia se mudado do shtetl[2], das aldeias da Pale[3], para Kiev e Moscou, em busca de liberdade intelectual e artística no fervor do modernismo do princípio do século XX. Todos apoiaram o estado comunista emergente.

Ouvimos sua vibração na abertura do poema[4] sem título de Markish:

Eu não sei se eu estou em casa
ou desabrigado.
Estou correndo, minha camisa
sem botões, sem limites, ninguém
me segura, sem começo,
sem fim
meu corpo é espuma
cheiro de vento
Agora 
é meu nome.

Seu sentido do futuro ecoa na estrofe do poema “Cidade” de Hofshteyn:

Cidade!
Eu cheguei em teu porto
no navio de minha solidão.
O navio de minha solidão…
Eu lavei suas velas
nos ventos…
Elas definharam e rasgaram
nos comprimentos e nas larguras
do mundo.

      Eram férteis escritores. Após anos no exterior, em Berlim e na Palestina, de 1923 a 1926, Hofshteyn retornou à União Soviética e publicou numerosos volumes de poesia e traduções. Markish fundou o movimento ídishe modernista conhecido como Khaliastre durante seus anos em Varsóvia. Após seu retorno à Rússia, foi-lhe concedido o Prêmio Lênin de Literatura em 1939. Fefer editou os jornais ídishes Prolit e Desafio e tornou-se membro da União de Escritores Soviéticos. Em 1943, viajou aos Estados Unidos com o ator Solomon Mikhoels atraindo audiências maciças em Nova York em apoio ao trabalho da liga Anti-Fascista.

Por que eles foram assassinados?

      Todos estavam relacionados ao Comitê Anti-Fascista Judaico, estabelecido em 1942 pela União Soviética para atrair o apoio das comunidades judaicas dos Países Aliados na guerra contra Hitler. Com o fim da guerra, a organização já não era mais útil a seus propósitos. Stalin, como soía fazer, virou-se contra seus líderes. Prendeu a maioria entre 1948 e 1949, levou a julgamento em 1952 – culminando com sua execução na noite de 12 de agosto no porão da prisão Lubyanka.
      As mortes destas figuras centrais na literatura ídishe soviética representaram novo golpe à cultura judaica já devastada pelo Holocausto. Silenciaram o núcleo remanescente de intelectuais ativos politicamente e excluíram presumir que tal cultura pudesse sobreviver na Rússia pós-guerra.
      É difícil para alguns de nós recordar agora o otimismo inicial inspirado pela revolução soviética. Tendemos a ter pouca simpatia pelos escritores que compuseram cantos para os trabalhadores ou para Stalin, como vários destes homens.
      Mas com isto nós nos esquecemos de nossas próprias vidas: como nos comprometemos para ganhar a vida; como um ano se transforma 5, em 10; como permanecemos em um trabalho ou em um relacionamento demasiado longo, sem esperança, ou porque nós amamos.
      Esquecemos também das difíceis opções dos artistas judeus daquela época, já estranhos às suas tradições, que não obstante criaram um lar, tentando realizar em alguma medida sua esperança. E esquecemos da ruína gradual mas catastrófica forjada por Stalin.

Uma voz mais pungente para o que foi perdido pode ser ouvida no clamor de Hofshteyn:

Meu amor, meu amor puro!
uma chamada a que sempre atentei
muda, carreguei-a
mil dias:
acima da cabeça cinzenta de meu povo,
para ser
um brilho jovem!

Brilho desperdiçado: interrompido, silenciado e recordado como o que se torna tão distante...
Honremos sua memória com alguns versos destes poetas.

Como seu fim, profética e tragicamente anunciado por Kvitko, em 1919, em “Morte Russa”:

Morte russa

é toda a morte.
Dor russa
é toda a dor.
Como está agora o coração do mundo?
E a sua ferida purulenta?
Pergunta a uma criança.
Pergunta a uma criança judia.

Publicado em Visão Judaica Ed. 62, outubro de 2007. (PDF)

* Doutora em Língua Hebraica, Literaturas e Cultura Judaica -USP, Professora Adjunta, Fundadora e ex-Diretora do Programa de Estudos Judaicos –UERJ, escritora.

[1] Ídishe- idioma judaico originado do alemão grafado em caracteres e com muitos vocábulos hebraicos.

[2] Shtetl (do ídishe: cidadezinha) é o nome ídishe das cidades judaicas na Europa oriental (Polônia, Rússia, Belarus 
etc.). 
[3] Sob o governo czarista, os judeus não tinham permissão para viver fora do Território de Assentamento (Pale), uma região da Rússia, onde, até 1907, massacres eram uma ocorrência comum. 
[4] Os poemas foram traduzidos pela autora deste artigo. Para ler mais deles e sobre eles contate a mesma. 


Para saber mais:

Português

  • Judeus na União Soviética (1917-1991) em Cybersio

English

  • Night of the Murdered Poets, with more links in Wikipedia


Imagens:

1. Silence by fokkusunm
2. Itsik Fefer and Shlomo Mikhoels meet with Albert Einstein. Princeton, 1943. (YIVO Archives)

terça-feira, 2 de abril de 2013

Silêncio - Sefirat ha Omer - Dia 8


Você consegue ficar 24 horas sem criticar?


Ela o observava em cada passo, enquanto isso pensava, um dia vou ser igual a ele.

- Vou ajudar arrumar tudo hoje pai.
- Cuidado, você é muito desastrada.
- Mas agora estou prestando mais atenção, assim como o senhor.
- Mesmo assim, isso aí é muito valioso, melhor não mexer.
- É mesmo, vou fazer um lanche para nós então.
- Cuidado, que você é mestre em se queimar.
- Mas foi quando era criança pai.
- Ah, esqueci, agora você é adulta com doze anos.
- Tá bem, tá bem, vou na padaria comprar pão.
- Vê se dessa vez não traz pão velho de novo.
- Desculpa pai, mas imagina-se que eles vendem pão fresco lá.
- Ai meu Deus, quando você vai aprender, já falei tantas vezes que, que.. Hum? Cadê você?
- ...
- Que foi filha, chorando de novo ai no canto? Se você não aguenta uma simples crítica minha, que só faço porque te amo, imagina como vai ser sua vida no mundo lá fora.
- Eu sei pai, é para o meu bem, mas é que ainda não me acostumei, acho que a mamãe me enganava sempre sabe.
- Não fala isso filha, olha que ela está vendo lá de cima.
- É que tudo que eu fazia ela dava um sorriso, mesmo depois de ver o arroz queimado, e para que o senhor não brigasse, ela fazia outro e dizia ter sido eu.
- Eu sei filha, não fica assim, ela me contava sabia? Ela dizia que você estava crescendo rápido, e sempre, sempre dizia que amava você mais que tudo nesse mundo, assim como eu.
- É que tem vezes pai, que o senhor nem vê o que fiz e já faz aquele olhar como quem diz, não quero nem ver e, e... Pai? O senhor está chorando? Desculpa, desculpa, eu não queria, é que..
- Shhhh, vem cá, me dá um abraço bem forte, HUMMMM. Eu te amo filha!
- Também te amo papai.
- Você me ajuda arrumar tudo aqui agora?
- Claro.
- Depois vamos sair para tomar uns sorvetes.
- Ebaaa, você é o melhor pai do mundo.

Ele a observava em cada passo, enquanto isso pensava, um dia vou ser igual a ela.

Joakim Antonio


Consideração final:

Muitas vezes criticamos demais quem amamos, nem esperamos ver o que aconteceu, o como, o porquê e já temos uma palavra pronta para criticar. Mas como saber se estamos criticando demais? Observando-se, tentando ver o máximo possível antes de tecermos comentários, acompanhando a solução que a própria pessoa terá, muitas vezes ela nos surpreenderá. O modo mais fácil de notar é tentar passar 24 horas sem criticar ninguém, então veremos o quanto é preocupação e amor, e o quanto já é hábito nosso.

Eu sou perfeccionista, podem pensar que é bom, mas isso tira a paciência de qualquer um. Antigamente o que mais ouvia era, "Você quer que todos sejam iguais a você!" e se pensar bem, era mesmo. Só melhorei quando aprendi cultivar a paciência, mas mesmo assim, não criticar a pessoa não significa aguentar suas atitudes erradas. Se sabemos fazer algo melhor, devemos compartilhar o que aprendemos e não exigir o que queremos. Ah, também não julgue a si mesmo severamente, use o mesmo amor com você!

Hoje é o oitavo dia, e a segunda semana de uma jornada , o assunto de hoje é amor na disciplina.


sábado, 10 de novembro de 2012

Silenciador - Retratos da Alma







Silenciador, coluna Palavra Expressa no site Retratos da Alma 




Silêncio no recinto

Me ressinto de falar

Quando fico mudo 

É medo de mudar

-

O som desligou 

E eu nem liguei

O mundo mudou

Ou me mudei 

-

Cordas vocais

Presas num canto

São barco...





Clique abaixo para ler o texto completo




Imagem original: Biography of my silence V By Mybittersweetness

domingo, 4 de novembro de 2012

Mecânica




Luz prateada
Atingiu a menina
Imprimindo mapas
Conexões universais
Diretamente na retina

Cores espectrais
Como ela nunca viu
Ampliadas ao máximo
Revelando algo no nada
Tornando tudo compreensível

Visão esperada
Abrindo as cortinas
Das prosas e versos
Dos mecanismos poéticos
Que fazem o silêncio gritar


Joakim Antonio



Imagem: Reflections XV by Neodecay

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