quinta-feira, 21 de julho de 2016

Distraído - Descortinando Hart Crane (poeta)



Distrações são vivas
nos levam pelo braço
passeando entre espaços
dentro do próprio ser

Distrações são traiçoeiras
aproveitam nossa cansaço
e sem fazer estardalhaços
nos deixam a sua mercê

Distrações são vazios
de crescimento rápido
criando mais espaços
a nos conter

Distrações são borrachas
apagando fino traço
nos tornando fracos
trazendo o esquecer

Joakim Antonio


Esquecimento é como uma canção
Que, sem ritmo e medida, perde-se.
Esquecimento é um pássaro de asas harmonizadas,
Abertas e imóveis —
Um pássaro que plana ao vento, incansavelmente.

Esquecimento é chuva noturna,
Ou uma casa velha na floresta — ou uma criança.
O esquecimento é branco — branco de árvore ressecada.
E pode atacar a Sibila¹ em profecia,
Ou enterrar os deuses.

Eu posso lembrar muitos esquecimentos.

Hart Crane, ESQUECIMENTO 

Hart Crane (21 de julho de 1899 – 27 de abril de 1932) foi um poeta modernista dos Estados Unidos.
Começou a escrever poesia moderna quando foi viver para Nova Iorque, influenciado por Pound e Eliot, escrevendo ainda em formas tradicionais e arcaicas. Em 1926, quando publicou sua primeira coleção de poemas ainda sofria influência simbolista.

Após a publicação de Bridge, em 1930, livro cheio de otimismo em relação aos EUA, Hart Crane entrou numa profunda depressão, embora continuasse a produzir em estilo requintado.
Depois de obter uma bolsa de estudos no México e de se mudar para lá por algum tempo, na viagem de regresso, Crane suicidou-se atirando-se ao mar.

Embora considerado por muitos de difícil compreensão, e tendo falecido jovem, tornou-se num dos poetas mais influentes da sua geração, sendo citado, muito posteriormente, em Howl e outros poemas, de Allen Ginsberg. WIKI



Par saber mais:

Português


English



1. Sibilas são um grupo de personagens da mitologia greco-romana. São descritas como sendo mulheres que possuem poderes proféticos sob inspiração de Apolo. WIKI

Imagem: Hart Crane by David Alfaro Siqueiros

terça-feira, 19 de julho de 2016

Cobrança - Descortinando Vladimir Maiakóvski (poeta)



A poesia me revela
justamente na falta
juntamente na falha
de grandes poetas
com bocas abertas
e palavras fechadas
em volta apenas deles
envoltos em cacoetes
falando apenas de si
não escrevendo
o simples
pois entraram
in complexus
menos povo
mais incesto
entre intelectuais
cheios de
mimimis

A poesia me encara
divinamente envidraçada
devidamente carregada
irradiando como o Sol
elétrons e prótons
para terra sem lei
na rede de nós
entre_lançados
diariamente
graças
a Deus e a Teus
divinos dons ocultos
em bites e bytes
perguntando onde andam
os bardos geeks
pois só vê o óbvio
de antiquíssimos versos
dos papiros do Egito

A poesia me acusa
constantemente de acídia
constatadamente verdadeira
por deixar de chocar
parindo apenas posts
com muito, amor, paz e doce
não mudando uma vírgula sequer
desse mundo iPadrão
onde Maiakovski
já saberia mil anos antes
que a revolução
não será televisionada
porque há tempos
já está sendo
devidamente twitada
com requintes de crueldade
por publicar sem pena
mais do mesmo

Joakim Antonio


"Traduzir poemas é tarefa difícil, especialmente os meus.
........................................
Uma outra razão da dificuldade da tradução de meus versos vem de que introduzo nos versos a linguagem quotidiana, falada...
Tais versos só são compreensíveis e só têm graça se se sente o sistema geral da língua, e são quase intraduzíveis, como jogos de palavras." Vladimir Maiakóvski



domingo, 17 de julho de 2016

Tocando



Às vezes, ao tocar outro, sente-se o barro. Dispensamos a mão e tocamos o pulso, como se tocássemos o coração. Sentimos a fogueira da alma e então, ouvimos a canção do outro. A ode que o Oleiro recitou ao nos dar forma, colocando um abismo em cada um, preenchido por um salto com amor. E de repente, no caos da própria voz, cantando desejos, você lembra de um olhar e sorri, ao perceber que o momento acontecera antes mesmo do que pensou.

E em algum lugar, olhando os dois, o Oleiro sorri também.


Joakim Antonio




Imagem: Final-Touch by ZaGHaMi

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Agradecimento eterno



Juntou seu dinheirinho, contando centavos pela vida afora e finalmente comprou a casa onde crescera. Mesmo a contragosto dos filhos, pois pagou bem mais do que valia. Mudou-se e fez um almoço de boas vindas para a família. Fez tudo como era no seu tempo de criança. A comida exalava um cheiro que nunca sentiram, evidenciando sua gostosura e deixando todos com água na boca, fazendo crianças e adultos ficarem em volta, nos famosos beliscos.

Ao servir a refeição, todos comeram até se fartar, alguns lembrando que há tempos não comiam certos alimentos e quitutes, mas tudo era bom demais. As mulheres, todas em volta dele, queriam saber as receitas do grande avô e ele. apenas ria e dizia ser segredo de família, mas no fim do dia, saberiam de onde veio.

Na hora da sobremesa, pediu que todos fossem para outra mesa, no quintal dos fundos. E assim o fizeram. Filhos em volta da mesa, netos pelo chão, noras servindo a todos em taças antigas, de extrato de tomate cica. Todos fizeram questão que ele comesse o primeiro pedaço do manjar, daqueles simples e com ameixas em cima.

Ele sentou e colocou um babador, meio puído e com galinhas e patos desenhados à mão, olhou para todos, com um brilho que nunca viram antes e sem medo dos netos o acharem mais louco, falou em voz alta, descendo lágrimas, mas com um sorriso no rosto.

Obrigado Mãe!


Joakim Antonio


Imagem: Smile by Dailywish

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