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sexta-feira, 28 de julho de 2017

Aprontando




Saio piando
quebrando cascas

Ando capengando
acumulando penas

Caio chorando
crescendo asas

Mas não engano
sou isto

Quando pronto
sei voar

Joakim Antonio


Imagem by Lorelyne
France

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sempre


Sempre exposto
até o osso
da canela
sendo batida
onde não pensam nela

Sempre torto
até o raso
do bolso
sendo furado
onde não pensam nele

Sempre bobo
até o fundo
da alma
sendo sugada
onde não pensam nela

Sempre poeta
até no fim
do abismo
sendo pássaro
onde não pensam nisso


Joakim Antonio


Photo by Sergei Sarakhanov
Russia - rolleiflex 3.5t
ilford fp4 125

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Canto certo



Hoje veio diferente, chegou em silêncio, como sempre faz, mas pousou e não cantou. Ficou olhando para um ponto no espaço, como se procurasse algo, que não estava mais lá. Foi um breve momento e então, foi-se. Não sei pra onde, se há outros por lá e nem se retorna. Mas uma coisa é certa, seu canto sempre estará por aqui.


Joakim Antonio



Imagem: By Vincent van Zalinge
Hollandsche Rading, Nederland

domingo, 11 de setembro de 2016

Dia de lição



Tomou novos caminhos e viveu usando um quase nome. Disse amém e rezou o grande livro. Fez todos os sacramento possíveis, mas nunca se adaptou. Sempre achou aquele deus esquisito, cheio de ciúmes e mágoas, vinganças e inconstâncias, muito parecido com o povo que o criou. Por onde ia era sempre bem quisto, ganhando elogios, mas faltava algo que não sabia expressar. Sentia que de longe o observavam, esperando algo mais.

Num certo dia, pegou sua jaqueta preferida e saiu sem destino, buscando palavras, que há tempos não ouvia mais. Buscou uma linha mestra e a seguiu, entrou na água fresca e depois passou pelo deserto, foi apontado pelos fiscais do politicamente correto e então, sem saber como, caiu numa cidade cinza. Andou pelas ruas escutando cânticos embebidos em álcool, ouvindo vários vazios, disfarçados de, Eu te amo e vestiu todas as peles que cada local pedia. Mas nada adiantou.

Voltou pra casa e encontrou um amigo no caminho, achou engraçado que era sempre o mesmo que aparecia nesses momentos. Seu amigo o olhou e brincou, sobre estar sempre de roupas pretas quando se viam, perguntando se isso era mania de poeta e saiu correndo rindo alto. Ele também riu, mas achou estranho a pergunta, olhou em volta e notou que havia parado no meio do campão de futebol. Um refúgio de barro no meio da cidade. Abaixou e começou a riscar algo no chão.

Observou o desenho feito de palavras, analisou o escrito, contou as sílabas, observou as frases, reviu as últimas palavras em cada uma e sorriu. Era isso! Não podia ter parado de escrever daquele jeito, aliás, de nenhum jeito. Se não havia papel, usasse as ruas, do mesmo modo, se não havia leitores, procurasse ouvidos sedentos, ao vivo. O que importava era poder deixar tudo fluir.

Ficou de pé e viu a revoada de pássaros chegando, ouviu seu canto e pensou como a natureza é pura poesia. Também, sem olhar pra trás, não notou o amigo ao longe, junto de outros, observando tudo. Um deles, mais velho, disse que olhando dali, os pássaros pareciam uma digital e outro, mais novo, perguntou se já podiam ir embora. Ao passo que o amigo antigo respondeu:

- Eu acho que devemos aproveitar mais o momento, pois não é sempre que podemos ver pássaros, em revoada, ensinando ao mais novo como voar.

Joakim Antonio



Imagem: Flight by Felicia Simion Photography
© COPYRIGHT 2007-2016

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Silenciador - Palavra Expressa




Silêncio no recinto
Me ressinto de falar
Quando fico mudo
É medo de mudar

O som desligou
E eu nem liguei
O mundo mudou
Ou me mudei

Cordas vocais
Presas num canto
São barco no cais
Não têm encanto

Um pássaro avoa
Sem emitir som
O passado ecoa
Num baixo tom

Dizem que o tempo
Pode curar tudo
Então silencio a dor
Dando um grito mudo


Joakim Antonio


Publicado originalmente na coluna Palavra Expressa, em Retratos da Alma.


Imagem: Biography of my silence V By Mybittersweetness

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Perseguição



Acordei
Um querer angustiante
E saí
Numa busca incessante
Sem saber
Quando
Não visualizando
Onde

Apertei os olhos
E o horizonte
Se desfez

Pedi algo nada fácil
O afastamento do amargo
Que em minha boca pousou

Ouvi sua chegada
Primeiro minúsculo ponto
Manchando o nada
E então ele apontou

Chegou em rasante
Lindo
Desafiador

Uma, duas, três voltas
Eu estático
Numa quarta
Ele me tocou

Como quem dissesse
Buscavas
Aqui estou

Então o segui pelo parque
Perdi ( ou ganhei ) toda tarde
Num estranho Longe Perto
Até que pousou

Cheguei tão perto
Estiquei a mão
E ele voou

Deixando cair um  ramo
Plantado no quintal
E agora
Adoçando meu hoje

Pois todos os dias vem brincar
No meu pé de erva-doce


Joakim Antonio



Imagem: Robin in the Fennel by Aconitum-Napellus

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