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terça-feira, 29 de novembro de 2016

Aprisionado


Em um filme, o herói usava suas habilidades para ir a outro universo, onde o vilão podia feri-lo sem parar, evitando sua volta, mas ficando presos naquele momento eternamente. Assim o único poder do vilão se resumiu em ferir o herói, que sempre se curava, mas admitia ser muito dolorido. Num acesso de raiva sem limites, o vilão disse que ele não entendia que o tormento seria eterno, nunca ia parar de feri-lo, nem deixá-lo ir embora, se ele não fizesse o tempo andar novamente. Ao passo que o herói calmamente lhe disse, "Na verdade, você é meu prisioneiro!".

Não consegui deixar de pensar na hora, como as pessoas não percebem isso. Alguns tentam de tudo para ferir alguém que não haja conforme seus desígnios. Através de fofocas, indiretas, palavras verdadeiras colocadas fora de contexto, assim como momentos. É até fácil, pois tudo que você imaginar pode ser distorcido, desde que o ouvinte também tenha a mesma índole ou seja ingênuo, acreditando em tudo que se diga, sem confirmar com o caluniado. Assim, ficam como no filme, presos em um momento. Um busca ferir e o outro, mesmo sentindo tudo, continua seguindo seu caminho escolhido.

Um dia tudo passa, a pessoa arruma outro desafeto e não precisa mais querer ser visto pelo atingido, fazendo de tudo para chamar sua atenção. Ou, o que mais machuca, percebe tarde que o outro sempre quis seu bem e que na verdade, sempre foi prisioneiro de si mesmo.


Joakim Antonio


imagem: Prisioner by William Cordero

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Caminho dos sentidos



Na escravidão dos sentidos, tudo é estranhamente igual, o lado doce, o apimentando e o louco lado normal. Há doces na senzala e eu tenho a chave, também há condimentos na mata e eu sinto seu cheiro. Posso viver sentando no toco cortado, ou com as mãos nos grilhões dos troncos, no fundo do terreiro. Não importa a escolha, ambos são cativeiros. Eu sinto o cheiro da vida na mata, uma mistura fina, de grama molhada com estrume de pássaro. Quem sabe se eu acertar o caminho, um lindo pássaro não cague na minha cabeça. Eu riria da gentileza. E se eu morrer no caminho, que eu alimente os abutres e que eles voem para longe, me depositando em outro local. E que meu crânio seja visto, como aviso, de que libertos mantêm um sorriso.

Na liberdade dos sentidos, tudo é diferente, não há lado certo, correntes e o lado avesso é o que vai à frente. Há céu da boca, lábios melados e baba de moça, também há pimenta vermelha, daquelas que excitam com o cheiro. Posso viver num local, amando docemente, até que enjoem, ou com as mãos ocupadas o ano inteiro, em diferentes locais. Não importa a escolha, ambos são cativeiros. Eu sinto o cheiro da vida na cidade, uma mistura confusa, de assalto dos sentidos, com arroubos de momentos. Quem sabe se eu errar o caminho, uma linda ladra me rapte. Eu riria da esperteza. E se eu viver nesse caminho, que não seja apontado sozinho e nosso maior pecado, seja perder a cabeça. E que ela fique perdida, como aviso, de que carne procura carne, para perder o juízo.

Na escravidão e liberdade dos sentidos, não há caminho correto, nem escolha errada, pois todo momento é vida.


Joakim Antonio


Imagem: Spicy Cone by Stridsberg
Model: The lovely Li

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