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domingo, 15 de janeiro de 2017
Precedente
Cores em mistura no sangue, das árvores, dos animais e dos elementais. O brilho no olhar denuncia a visão. Presente de vidas em si. A calma em meio ao caos, aponta direções. Não há como disfarçar os sentimentos, pois a alegria pulsante de viver, vibra na palavra e tem cheiro de aviso de pingo d'agua n'alma. Não há nem como dizer, não ter bebido do tempo e brincado nas areias escorrendo no próprio vidro. E sempre aceito o pedido da vida, por um conto sobre como é bom amar.
Estampa em meu rosto, direto dos ancestrais, mais histórias do que posso contar.
Joakim Antonio
Imagem: Menino Kaiapó by Renato Soares
domingo, 20 de novembro de 2016
Paradoxo
Passadas longas
corridas breves
areia do tempo
marcas leves
Linha mutável
horizonte fixo
sombra zero
Deus a pino
Desejo original
vontade clichê
útero da praia
eterno renascer
Completo mundo
indivíduo inteiro
entre aspas
meio a meio
Joakim Antonio
Imagem: Half man half biscuit by Ahermin
Marcadores: autor, joakim, prosa, poesia, reflexão
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segunda-feira, 9 de julho de 2012
Veste de areia
Foi como sempre para a praia deserta, próxima à sua casa, deitou-se na areia e esperou o vento desenhá-la. Cansada de voar pelo inimaginável, sentiu necessidade de terra firme, chão quente e pessoas longe de lhe perturbar. Já sabia o que aconteceria, acordaria toda cheia de areia, dos pés a cabeça, mas não se importava. Era seu momento de retorno ao passado, quando fugia da casa dos pais e, enterrada na areia, sentia-se verdadeiramente em casa.
Hoje em dia não fugia de casa, o pai não podia mais proibir, o filho tampouco ligava, os vizinhos já se acostumaram com suas esquisitices de artista e os poucos casais na praia, também procuravam lugares somente seus. Hoje em dia, ela fugia das próprias palavras, do desassossego dos dias, das línguas más, da falta de poesia, de um mundo que não reconhecia mais e da falta de sua mãe.
Na areia ela brincava de poetiza, vestia-se de bailarina, desenhava asas de anjo e sentia-se deusa, com o poder de criar com as próprias mãos, ou, se desejasse, destruir tudo; mesmo tendo gostado ou não. A areia permitia que vestisse o que mais lhe conviesse, as mais lindas vestes, os sonhos mais loucos, morar em castelos ou campos, perceber seus encantos e se reenergizar.
Mas nesse dia, ela dormiu antes e sem que visse, o vento diminuiu o ritmo, não deixando a areia penetrar em seus cabelos, acariciou-lhe o rosto como brisa de verão, mudou de direção loucamente, a ponto de surgir pequenos redemoinhos, esculpindo lindo vestido, algumas vezes para isso tocando seus pés e acariciando suas mãos. No final rumou para o norte e como que se despedindo, soprou-lhe no ouvido suavemente, acordando-a então.
Ela abriu os olhos lentamente, ainda ouvindo uma linda canção e qual não foi sua surpresa, ao ver o lindo vestido de areia, com o qual, no seu sonho, acabara de lhe presentear sua ausente mãe.
Joakim Antonio
Imagem: Sand by Chudeyka
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