sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Trato antigo



- Nunca deixe de fazer algo, porque o mesmo tema já está por aí, aliás, isso devia ser um sinal de que está no caminho certo. Há uma fina conexão entre consciências. Ideias são vivas e buscam todas as mãos que lhe deem atenção, querendo ser. 

- Jamais deixe de falar, por parecer coisa ínfima, que será esquecida, pois nada é sem importância. Se seu coração desejou é porque naquele momento, tudo era certo. Não há coincidências, há o tudo que você fez para que aquilo viesse até a ti. 

- Em nenhum momento, tenha medo de mudar. Há novos cais, amores, chegadas e despedidas. Mas seja amigo, exalte os acertos, ria dos defeitos, mas fuja de quem se junta pra desdenhar e rir de feridas. Sempre haverá um amor maior. Parece cruel, mas é a vida. 

- E preste muita atenção nos sinais. É normal que, às vezes, você se esqueça a que veio. Mas quando os amigos lhe perguntam, onde está aquele você, é hora de rever seus conceitos.


Joakim Antonio

(relembrando antigas regras)


Imagem: Write by Selaks


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Passeando pelo Rio


Ah, o Rio em Dezembro, praticamente de Janeiro, muito sol, lindas mulheres, futebol, voleibol, águas limpas, azuis, verdes. Paisagens sempre coloridas, mudando os tons conforme o tempo e o temperamento.

Não posso falar dele inteiro, mas a Barra era um paraíso e além do mais, a companhia era incrível. Só a deixava para entrar no mar, ficando até enrugar praticamente tudo, realmente tudo. Após um tempo, chamava para irmos embora, mas como? Não é que eu não queria, sou golfinho e água é casa, mas todos sabem que voz de sereia tem poder, então logo saía.

Eu ficava na Tijuca esperando ela chegar, o telefone não tocava, o tempo esticava, esticava... Confesso que nunca vi o tempo esticar tanto, mas ela sempre vinha. Foram dias que pareceram meses, algumas coisas passam voando, mas o tempo que eu fiquei pareceu um ano.

O retorno nunca foi tão doído, apesar da tristeza, não havia mais medo, só havia entrega e um pouco de segredo, mas só nosso. Em compensação, o reencontro era certo e mais, o réveillon, o show, a praia, o hotel, todos os momentos tornaram-se eternos.

Mas a beleza de ter e ser contido, praticamente canibalizado no Rio, é que não era só sexo.

Era amor!

Joakim Antonio


Imagem: Paia da Barra - RJ by JoaKim

Publicado originalmente no site Passeando pelo Cotidiano

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Nascimento



E antes de nascer, já era verso. Cantado na aldeia, ensinado a gerações, às vezes em segredo de amantes. Declamado ao pé do ouvido, avivando o olhar, tornando-se doce gemido e invadindo o sangue. Primeiro virou minúsculo ponto e em nove meses, cresceu, ganhando vírgulas, acento, letras, palavras, cantos ancestrais. Também ouviu desejos, de que não fosse outra menina, medos de que, como os outros meninos, viesse para ir embora logo. No dia certo, o trovão anunciou e a tempestade veio, houve correria e até carro de polícia, faltando pouco pra nascer nele. Mas a chuva abençoou o momento e em vez de trânsito, ruas vazias. Houve um momento suspenso no espaço-tempo, mas em ninho protegido, passarinho pia alto e todos os medos sumiram. E a poesia daquele dia, foi tão simples, mas tão intensa, que só eles compreendiam.
O verso no olhar gritava, eu te amo, mas só conseguiam repetir:
"Ele nasceu, ele nasceu..."

(afilhado da chuva, nascido na tempestade, anunciado no trovão)


Imagem: New life is born 1 by inextremo

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Eterno agradecer


Juntou seu dinheirinho, contando centavos pela vida afora e finalmente comprou a casa onde crescera. Mesmo a contragosto dos filhos, pois pagou bem mais do que valia. Mudou-se e fez um almoço de boas vindas para a família. Fez tudo como era no seu tempo de criança. A comida exalava um cheiro que nunca sentiram, evidenciando sua gostosura e deixando todos com água na boca, fazendo crianças e adultos ficarem em volta, nos famosos beliscos.
Ao servir a refeição, todos comeram até se fartar, alguns lembrando que há tempos não comiam certos alimentos e quitutes, mas tudo era bom demais. As mulheres, todas em volta dele, queriam saber as receitas do grande avô e ele, apenas ria e dizia ser segredo de família, mas no fim do dia, saberiam de onde veio.
Na hora da sobremesa, pediu que todos fossem para outra mesa, no quintal dos fundos. E assim o fizeram. Filhos em volta da mesa, netos pelo chão, noras servindo a todos em taças antigas, de extrato de tomate cica. Todos fizeram questão que ele comesse o primeiro pedaço do manjar, daqueles simples e com ameixas em cima.
Ele sentou e colocou um babador, meio puído e com galinhas e patos desenhados à mão, olhou para todos, com um brilho que nunca viram antes e sem medo dos netos o acharem mais louco, falou em voz alta, descendo lágrimas, mas com um sorriso no rosto.
Obrigado Mãe!

Imagem: Smile by Dailywish

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