segunda-feira, 9 de julho de 2012

Veste de areia



Foi como sempre para a praia deserta, próxima à sua casa, deitou-se na areia e esperou o vento desenhá-la. Cansada de voar pelo inimaginável, sentiu necessidade de terra firme, chão quente e pessoas longe de lhe perturbar. Já sabia o que aconteceria, acordaria toda cheia de areia, dos pés a cabeça, mas não se importava. Era seu momento de retorno ao passado, quando fugia da casa dos pais e, enterrada na areia, sentia-se verdadeiramente em casa.

Hoje em dia não fugia de casa, o pai não podia mais proibir, o filho tampouco ligava, os vizinhos já se acostumaram com suas esquisitices de artista e os poucos casais na praia, também procuravam lugares somente seus. Hoje em dia, ela fugia das próprias palavras, do desassossego dos dias, das línguas más, da falta de poesia, de um mundo que não reconhecia mais e da falta de sua mãe.

Na areia ela brincava de poetiza, vestia-se de bailarina, desenhava asas de anjo e sentia-se deusa, com o poder de criar com as próprias mãos, ou, se desejasse, destruir tudo; mesmo tendo gostado ou não. A areia permitia que vestisse o que mais lhe conviesse, as mais lindas vestes, os sonhos mais loucos, morar em castelos ou campos, perceber seus encantos e se reenergizar.

Mas nesse dia, ela dormiu antes e sem que visse, o vento diminuiu o ritmo, não deixando a areia penetrar em seus cabelos, acariciou-lhe o rosto como brisa de verão, mudou de direção loucamente, a ponto de surgir pequenos redemoinhos, esculpindo lindo vestido, algumas vezes para isso tocando seus pés e acariciando suas mãos. No final rumou para o norte e como que se despedindo, soprou-lhe no ouvido suavemente, acordando-a então.

Ela abriu os olhos lentamente, ainda ouvindo uma linda canção e qual não foi sua surpresa, ao ver o lindo vestido de areia, com o qual, no seu sonho, acabara de lhe presentear sua ausente mãe.


Joakim Antonio


Imagem: Sand by Chudeyka

3 comentários:

  1. Quanta delicadeza!
    Emocionante e lindo.
    Abraços
    V.

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  2. Aplausos!

    Beijos de luz pra que você continue irradiando!

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  3. O bom não é que areia apaga, mas que ela se redesenha.

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"Quando escrevo minhas idéias tornam-se a pena e minha alma a tinta, por isso quando você lê, você me sente."

Deixe-me saber o que você sente.

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