segunda-feira, 15 de junho de 2015

Conclave



Poetas
casca dura
ojeriza histérica
por outras escrituras

Críticos
do não-eu
crias disléxicas
dum ego-ser poeta

Olhos
ainda longe
diante cataratas
nas noites insones

Elogios
quase infantes
palavras complexas
em ecos equidistantes

Gritaria
sempre perfeita
paráfrase correta
pelas suas métricas

Humildade
quase nula
símplices inertes
numa linda moldura

Malditos
poetas benditos
unanimidade sacra
cardeais do ofício

Joakim Antonio

Imagem: Conclave I by Violico

domingo, 14 de junho de 2015

Há um vampiro em Curitiba - Descortinando Dalton Trevisan (escritor)


Desenho feito a partir de relato de testemunhas

Cara olha só o que descobri hoje, saiu no jornal do meu pai.
Ah então eu já sei, não tem nada que eu não saiba de notícia.
Então você já sabia que há um vampiro em Curitiba?
Deixa de falar besteira cara, vampiros não existem.
Mas tá aqui ó, no jornal, vampiro de Curitiba.
Tá bem então, se tem foto, já não é.
Aqui diz que ninguém consegue fotografá-lo.
Tá, mas vampiro não sai no sol.
Ninguém o vê de dia. Aliás, aqui diz que ninguém o vê.
Mas não tem vampiro brasileiro não, já viu vampiro moreno cara.
Nada a ver, ele morde só branco agora por acaso? Mas de qualquer jeito ele é pálido e... nossa!!
Que foi? Fala logo que agora você me deixou nervoso.
Deve ser novo, saca só, vampiro não vive muito?
É sim, por que?
Ele está fazendo 86 anos hoje.
Então é verdade, tem um vampiro em Curitiba.
Peraí, não é vampiro que se falar o nome 10 vezes ele aparece? 
E quantas vezes nós falamos?
Vampiro?
Nesse momento a luz se apaga. 

Joakim Antonio

(Texto publicado em virtude da comemoração dos 86 anos de Dalton Trevisan, no dia de hoje ele completa 90 anos de idade.)


Dalton Jérson Trevisan (Curitiba, 14 de junho de 1925) é um escritor brasileiro, famoso por seus livros de contos, especialmente O Vampiro de Curitiba (1965), e por sua natureza reclusa.

É reconhecido como um importante contista da literatura brasileira por grande parte dos críticos do país. Entretanto, é avesso a entrevistas e exposições em órgãos de comunicação social, criando uma atmosfera de mistério em torno de seu nome. Por esse motivo recebeu a alcunha de "Vampiro de Curitiba", nome de um de seus livros. Assina apenas "D. Trevis" e não recebe a visita de estranhos.
Prêmios
Foi eleito por unanimidade vencedor do Prémio Camões de 2012, ano em que também recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra. Fonte: Wikipédia

sábado, 13 de junho de 2015

Pessoas - Decortinando Fernando Pessoa



Dizem para sermos nós mesmos, senão podemos nos perder por inteiros. Poucos entendem que somos fragmentos de tempo, engrenagens móveis, insubstituíveis é verdade, mas todas trabalhando juntas, nos tornando um só.

Se cada momento nosso pudesse falar, teria uma personalidade própria. Com poucas divisões teríamos, o amoroso, o disciplinado, o alegre, o paciente, o honesto, o sonhador e o racional. Isso falando do lado bom, pois cada um tem sua contra parte, então somando os maus teríamos quatorze.

Agora imagine cuidar de todas essas personalidades. Muito trabalho, não é mesmo?

Alguns perguntam sobre a genialidade de Fernando Pessoa, basta dizer que ele se desmembrou em setenta e duas personalidades, incluindo o próprio, sendo mais conhecidas Alberto Caieiro,  Álvaro de Campos e Ricardo Reis, cada um com sua própria biografia.

Hoje comemora-se o 127° aniversário de Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "legado da língua portuguesa ao mundo". 

O poema, Se depois de eu morrer, é de Alberto Caieiro uma das pessoas de Fernando.

Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimento nenhum.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar, porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi para mim senão um acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las todas iguais.

Um dia deu-me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso, fui o único poeta da Natureza.



Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.
É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "legado da língua portuguesa ao mundo".

Por ter sido educado na África do Sul, para onde foi aos seis anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu perfeitamente o inglês, língua em que escreveu poesia e prosa desde a adolescência. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Fernando Pessoa traduziu várias obras inglesas para português e obras portuguesas (nomeadamente de António Botto e Almada Negreiros) para inglês.

Ao longo da vida trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como correspondente de língua inglesa e francesa. Foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária em verso e em prosa. Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um "drama em gente". Fonte: Wikipédia

Ficha pessoal 

Ficha pessoal, também referida como nota autobiográfica, intitulada no original "Fernando Pessoa", dactilografada e assinada pelo escritor em 30 de Março de 1935 (em algumas edições está 1933, por lapso). Publicada pela primeira vez, muito incompleta, como introdução ao poema À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, editado pela Editorial Império em 1940. Publicada em versão integral em Fernando Pessoa no seu Tempo, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1988, pp. 17–22.


FERNANDO PESSOA*
Nome completo: Fernando António Nogueira Pessoa.
Idade e naturalidade: Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n.º 4 do Largo de S. Carlos (hoje do Directório) em 13 de Junho de 1888.
Filiação: Filho legítimo de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paterno do general Joaquim António de Araújo Pessoa, combatente das campanhas liberais, e de D. Dionísia Seabra; neto materno do conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto e Director-Geral do Ministério do Reino, e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral: misto de fidalgos e judeus.
Estado civil: Solteiro.
Profissão: A designação mais própria será "tradutor", a mais exacta a de "correspondente estrangeiro" em casas comerciais. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.
Morada: Rua Coelho da Rocha, 16, 1º. Dto. Lisboa. (Endereço postal - Caixa Postal 147, Lisboa).
Funções sociais que tem desempenhado: Se por isso se entende cargos públicos, ou funções de destaque, nenhumas.
Obras que tem publicado: A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. É o seguinte o que, de livros ou folhetos, considera como válido: "35 Sonnets" (em inglês), 1918; "English Poems I-II" e "English Poems III" (em inglês também), 1922; livro "Mensagem", 1934, premiado pelo "Secretariado de Propaganda Nacional" na categoria Poema". O folheto "O Interregno", publicado em 1928 e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito.
Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o prémio Rainha Vitória de estilo inglês na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.
Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver um plebiscito entre regimes, votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reaccionário.
Posição religiosa: Cristão gnóstico e portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas e, sobretudo, à Igreja Católica. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria.
Posição iniciática: Iniciado, por comunicação direta de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da Ordem dos Templários de Portugal.
Posição patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: "Tudo pela Humanidade; nada contra a Nação".
Posição social: Anti-comunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.
Resumo de estas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.
Lisboa, 30 de Março de 1935.
Fernando Pessoa [assinatura autógrafa]
 * Cópia do original dactilografado e assinado existente na Coleção do Arquiteto Fernando Távora.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Realidade


Moleque safado, roubou o mercado. Doriana dentro da calça, Claybom por baixo da camisa. Saiu correndo em desespero e parou na esquina. Ofegante, suado, ainda com os olhos estatelados, de medo, enquanto o segurança gritava, "Eu ainda te mato, seu porcaria.".  Seu cheiro era sem tamanho, mistura de comida da lixeira e dias sem banho. Mas agora sim, usaria seu dom artístico para mudar seu destino. Cansou de fazer esculturas, em sobras de feira, que ninguém queria.

Jogou os potes na calçada, encheu a mão naquele engordurado gelado e esculpiu de qualquer jeito, uma mulher, um homem, duas crianças, um cachorro e uma casa ampla. Logo depois, se acalmou, rezou pro Dono das ruas e dormiu diante sua obra prima. Acordou com o sol a pino, mais sujo que de costume, quase que recoberto por sua criação. Não foi como nos desenhos, onde a comida anda, nem foi como nos contos de fada, onde desejos viram realidade. Foi sim, exatamente como lá no fundo já esperava e entendia.

Não é dado aos rejeitados, ter uma família de margarina.

Joakim Antonio​


Imagem: Homeless by sifu

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